Rio Doze

Rio Doze

PROJETO DE PESQUISA ​​ (1984)

Maria Julia Pascale

Observando a história mais recente da cultura brasileira, especificamente no que concerne ao Teatro, veremos que as últimas manifestações expressivas de representação e recriação da personalidade “brasílica” têm os nomes de Teatro de Oficina e Teatro de Arena e seus marcos no final da década de 60 e início da de 70.
Portanto, vemos que a repressão teve conseqüências bastante drásticas nas formas de expressão dos artistas deste país. A geração que está entre os 25 e 35 anos não teve ainda a oportunidade de propor a sua linguagem, mostrar suas idéias ou apresentar seu ideal de futuro. No cenário Teatral, esta geração não se acha representada.

No campo das ciências humanas e sociais, das artes plásticas e até mesmo da música, a personalidade “brasílica” tem sido mais pesquisada. Podemos notar um trabalho de achego às raízes deste país através de Darci Ribeiro, Egberto Gismonti ou Marlui Miranda, afora outros. No entanto, o campo teatral carece desta abordagem. Quando se representa as questões indígenas, por exemplo, o veio condutor é o histórico-social ou então das fábulas e lendas. A sensibilidade e a percepção são aspectos ignorados.

A partir destas considerações e também de uma grande disponibilidade de alma, pretendo desenvolver e apurar uma certa percepção da sensibilidade indígena​​ 
brasileira. Buscando aprofundar em mim, como intérprete e atriz, as características “brasílicas” latentes.
Para tanto pretendo permanecer numa tribo durante algum tempo a fim de aprender, captar, plasmar-me com o universo instintivo e primitivo do indígena, o que já percebo em mim, por ter uma descendência materna indígena, mas que em seu estado extremamente bruto e reprimido não está ainda decodificado. Escolhi uma tribo de nome Salumã, que fica no Mato Grosso, por ter notícia que seu comportamento ainda está pouco afetado pelos padrões ‘civilizados’ e a área do Xingu, pois, exatamente por estarem mais protegidos das questões de demarcação de território, os índios desta região vivem mais tranquilamente, preservando os seus costumes e manifestações.

Minha estada nestas aldeias será dedicada a aprender o Brasil, pesquisando-o intuitivamente e não por métodos que estejam afetos a outras ciências. A ciência do ator é a própria vida, a sensibilidade e a intuição. Estes é que serão os meus instrumentos de trabalho para captar um pouco mais deste povo apelidado “brasílico”.

Pretendo que me seja dada uma autorização de um ano e seis meses para a estada em área indígena a começar de fevereiro de 1985.
Como proposta de realizações posteriores à pesquisa apresento:

a médio prazo: participação como intérprete num espetáculo “de envolvimento”, de busca de uma representação “em torno” (do público), intitulado​​ “Numa Noite, Um Bar”, de autoria de Paulo Macedo.
a longo prazo: criação de um Espetáculo de Parque, com temática inspirada no teatro de rua dos séculos XVI e XVII, abordada por uma linguagem de novos signos (brasílicos) e super-representação (grandes movimentos, bonecos e sinais gigantes).

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São Paulo, 8 de Janeiro de 1985
Caro Vicente Cañas


Estou tomando a iniciativa de lhe escrever por indicação de um amigo, o antropólogo Rinaldo Arruda, que já esteve em visita curta aos Salumãs.
O motivo desta minha carta é pedir uma orientação de como e se eu poderia fazer uma visita a tribo dos Salumãs durante o mês de fevereiro.
Sou atriz profissional há onze anos e trabalho na pesquisa teatral e da interpretação buscando aprofundar os sentimentos e a expressão da alma humana, esta maravilha.
Neste ano que passou, 1984, realizei o trabalho de maior peso da minha vida profissional. Fiz uma peça chamada “O Exercício”, que exige dos dois atores que a interpretam não só uma profunda observação da interpretação em si mesma, como um despojamento muito grande dos próprios preconceitos.
Aprendi bastante nesta temporada de nove meses de espetáculo. Dentre as​​ inquietações que se me colocaram no decorrer do trabalho, uma delas me levou à seguinte observação e busca: a autenticidade é um atributo fundamental para se ser uma atriz conseqüente, que transmita esperança de vida.
Nestes últimos meses, o Teatro me fez experimentar muitas sensações e eu permiti que elas me conduzissem em cena. Estar duas horas vivendo uma personagem, sem interrupção, possibilita o teu inconsciente se liberar mais e se sua alma estiver aberta pode-se captar mensagens até então nunca recebidas.
Assim, em certas cenas, eu me flagrava vivendo e forjando experiências fascinantes que na vida real eu nem saberia como fazer. Esta “capacidade” me fez pesquisar um pouco mais o meu passado, por isso essa minha vontade de conhecer o meu lado negro e especialmente o indígena.
(Minha mãe é neta de índia, mas ela foi cada vez mais assimilando os hábitos do parceiro de casamento, no meu caso, os italianos.)
Acredito que devo voltar ao palco e ao meu público com uma nova expectativa e esperança de vida. Minha reflexão neste momento de vida, deve ser feita junto aos elementos mais naturais, puros e primitivos, deixando que o meu ser se invada dos fluidos elementares, instintivos, energéticos e místicos.
Nesse momento, gostaria de estar aí com vocês, na aldeia Salumã, buscando a pureza e a autenticidade das expressões, me aproximando um pouco mais da Natureza, em todas as suas manifestações.
Sinto que esta minha estada aí tem um sentido quase existencial. É a minha​​ arte, a minha “missão”, que me leva a te pedir, Vicente, que me oriente.
Gostaria que você me escrevesse dando sua opinião e todas as diretrizes que você julgar necessárias. Enfim, você é o próximo ator a entrar em cena, pelo menos neste simples ato de comunicação entre duas pessoas. Me receba abertamente e, por favor, desculpe-me desde já por não te apresentar nenhuma “tese”, estou seguindo um apelo que só é afetado pelas transformações da lua guia.
Um abraço fraternal e carinhoso,

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Ilmo. Sr. Fernando Lins
Secretaria de Assuntos Sócio Culturais
Ministério da Cultura


Venho a Vossa Senhoria apresentar um projeto de pesquisa e solicitar sua intenção no que concerne à obtenção de recursos para a continuação de um trabalho.
Conforme o curriculum anexo pode-se observar que tenho participado da produção teatral paulista desde 1973.
A partir de 1983 alguns fatos e estudos artísticos mudaram o rumo das minhas atenções no campo do teatro:

1Aprimoramento da minha expressão corporal através do curso de dança Klaus Viana (1983-1986);
2Curso de Mímica com Denise Stoklos (1983);
3Participação na Oficina de Teatro do teatrólogo Luís Roberto Galízia (1984);
4Atriz do espetáculo “O Exercício”, de Lewis John Carlino, sob direção de Miriam Muniz, com atuação elogiada tanto pela crítica especializada como pelos companheiros artistas (1984);
5Estudo da mitologia clássica e leitura dramática pública dos textos teatrais gregos, no Anfiteatro da Universidade de São Paulo, sob orientação do catedrático carioca Junito de Sousa Brandão (1985);
6Visita às aldeias Nambikwara, grupo indígena que vive no Mato Grosso do Norte (1985);
7Estudos da filosofia Zen-budista (1985-1986).

A reunião destas experiências e estudos resultou num primeiro espetáculo intitulado TRANSPIRAÇÃO (vide pasta em anexo), que estreou em dezembro de 1985 no Centro Cultural São Paulo e também foi apresentado em Rondônia e Mato Grosso do Norte.
Para um aprofundamento da linguagem, voltei aos estudos indígenas em janeiro deste ano, visitando desta vez as aldeias dos Inauenê-Nauê, no Mato Grosso do Norte, na qual fiz uma apresentação do espetáculo (vide foto colorida em anexo). Também com o mesmo propósito estive trabalhando com Kazuo Ohno, mestre da dança moderna japonesa, criador do butoh, nas cidades de São Paulo e Brasília.
Para que a próxima etapa desta pesquisa (cujo resultado pretende ser apresentado no final dos próximos dois anos em forma de espetáculo teatral) seja vencida, preciso de sua atenção. Pretendo passar os próximos oito meses (de junho a janeiro de 86) visitando outras aldeias da mesma região (Mato Grosso e Rondônia), pesquisando os rituais e o gestual cotidiano indígenas. Esta ação me exigirá recursos de Cz$ 5.000,00 (cinco mil cruzados) mensais, o que soma Cz$ 40.000,00 (quarenta mil cruzados), que servirão para custear despesas com transportes, estadias e alimentação, bem como materiais para documentação do trabalho.
Ao final desta etapa pretendo: passar três meses no Japão fazendo um curso com Kazuo Ohno e aprofundar o estudo da mitologia clássica e da filosofia Zen-budista. Daí sim, estarei apta a iniciar uma montagem teatral, envolvendo profissionais de teatro de vários estados brasileiros.
Na expectativa de uma solução favorável que venha viabilizar este meu entusiasmado projeto,
Atenciosamente,​​ 
MARIA JULIA PASCALE
Brasília, 25 de abril de 1986.

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São Paulo,​​ 11​​ de Fevereiro de 1986.

À Nação Kikbaktsa
Caros Amigos,


Estou escrevendo esta carta para contar o que eu gosto de fazer e para pedir sua ajuda.
Amigos, eu trabalho com Teatro. Imito gente, conto histórias conhecidas ou inventadas, danço, canto. Eu e meus companheiros de trabalho fazemos isso para mostrar para o povo que vai assistir a peça de Teatro alguma idéia na qual acreditamos.
No ano passado eu fui visitar os Nambikwára e no mês passado eu fiquei aí bem pertinho também, na aldeia dos Enauenê-Nauê. Estas visitas são para eu aprender como o povo que vive no mato pensa e faz suas festas e rituais.
Eu fiquei sabendo, através do Fausto, que vocês estão preparando uma festa que tem bastante imitação e histórias do povo Rikbaktsa. Se vocês me permitirem eu gostaria de visitar a sua gente e poder ver a festa que vocês estão preparando.
Eu quero aprender com vocês para chegar aqui, na cidade, e tentar mostrar um pouco da sabedoria do índio. É difícil fazer o povo da cidade sentir com o coração. Aqui tudo se resolve com o dinheiro e o pensamento frio.
Eu estou tentando fazer essa gente mudar um pouquinho. As histórias e o jeito de viver dos Rikbaktsa que eu aprender poderão entrar no coração das pessoas e daí elas vão perceber que o índio é bom, é sábio, tem muito para ensinar para o​​ branco. Quem sabe, a minha peça de Teatro poderá ajudar e aí eles vão deixar os Rikbaktsa e todas as nações indígenas em paz nas suas terras.
Eu fico esperando a resposta de vocês me dizendo se eu posso ir ou não. Se eu for aceita eu quero estar aí em abril.
Por favor, me expliquem como eu faço para chegar na aldeia porque eu só sei ir até Fontanilhas.
Se vocês encontrarem o Rinaldo peçam para ele umas fotografias minhas, que ele tem. Elas estão num papel junto com outros da peça que eu faço chamada TRANSPIRAÇÃO.
Amigos Rikbaktsa, me despeço com a esperança de poder conhecê-los pessoalmente no mês de abril, aprendendo como é a festa de vocês.
Enquanto aguardo, parte do que sente o meu coração fica perto de vocês todos, todos, amigos que vivem aí no mato.

Julia Pascale

PROJETO RIO 12
Maria Julia Pascale

RELATÓRIO I – MINC/INACEN


ROTEIRO:

1.Cuiabá – MT – casa de trânsito da OPAN (Operação Anchieta), entidade indigenista; casa de trânsito da Missão Anchieta, que recebe os índios em passagem por Cuiabá; hospital da FUNAI; encontro com cacique – xamã Xavante.
2.Viagem para as aldeias dos índios Parecis – aldeia do Paredão.
3.Visita a aldeia do Sacre dos índios Irantxe.
4.Visita a aldeia do Cravari – dos índios Irantxe.
5.Visita a aldeia dos MINKI – próxima à cidade de Brasnort.
6.Estada na cidade de Brasnort acompanhando índios doentes.
7.Viagem em avião da Funai para Cuiabá, com uma família de índios.
8.Longa busca (3 dias) por um hospital que recebesse a índia doente acompanhada do marido e filho pequeno.
9.Acompanhamento da doente em Hospital Cuiabano.

OBSERVAÇÕES:
Histórias do Fernandes (ex-boiadeiro e desbravador do interior dos Estados de Mato Grosso e Rondônia):

Uma freira que chegava pela primeira vez numa aldeia indígena, com o propósito de atrair os índios, jogava caramelos e pirulitos pelo chão.
Certa vez, os índios canoeiros (Rikbaktsa) foram encontrados no barco à beira do Rio Juruena, levando duas cabeças de seringueiros à bordo.
Os índios “Cinta Larga” mataram o grande pistoleiro “Canguru” e comeram ele todinho.
Os índios comem os outros índios para ficarem com a força dos mortos.
“Se o Rio Juruena pudesse contar as histórias das cruzes que estão fincadas nele, a água secava.” ​​ - Fernandes.
De quatro em quatro anos há um ritual das mulheres Salumã – os homens cuidam de tudo, das comidas, das crianças e as mulheres dançam.
Os índios mais novos formados no Utiariti (colégio interno dos padres) diferem bastante dos índios mais velhos nas questões de “guerra”. Os mais velhos ainda têm uma postura guerreira. Etc...


Notícias da Política Indigenista Oficial ou Não:

Sob o comando de um dos Junqueiras fazendeiros uma série de gatos (espécies de capanga) capturam homens do campo e sob regime de escravidão os transportam para um determinado território indígena. Estes homens, sob ameaças de tortura e outros tipos de maus tratos, se vêem obrigados a destruírem qualquer vestígio das tribos indígenas, sejam suas roças ou, cruelmente, os próprios indígenas, como os Nambikwarinha (arredios).
Território dos índios Salumã é invadido por seringalistas conforme denunciam os caminhoneiros.

Protesto:

Sob este céu fulgurante
irradiando faíscas
de luz e felicidade
jorra o sangue
entre dentes
de irmãos que mais conhecem
este céu e este sol.

 

Vive também
um trator devorador
o monstro destruidor
que algema o branco

cospe no negro
mata o índio.

Um Junqueira
nesta terra
me envergonha
me alucina.
Sinto ódio,

impotência

Tenho um medo

irracível.

Céu aberto
gente morta
irmão de luz
a treva come.

Sob o mando desalmado
de um turista depredando
toda a Terra e todo o Amor.

Destruir
Rarefazer
Entumecer
Comer,
Verbos fortes
apropriados
pra este ser
que enlouqueceu.

Tenho a vista
desviada
do sublime entardecer.
Ele está todo manchado
pelo sangue avermelhado
que correndo sobre a terra
forma lágrima doída
que meus olhos se recusam
a chorar
a lamentar.

Muitos gritos
Muitas lâminas
não expressam
meu terror.

Me sufoco
enrolo a língua
giro o olho
de pavor.

O cabelo em desarranjo
só embala o torturar
desta alma machucada
envergonhada de aflição.

Quantas vidas?
Quantos cantos?
mães e filhos
pais e amigos
xamãs
líderes
amores
cantores?
Onde está o povo amigo
Que o Junqueira aniquilou?

Filho da pu ta!
Filho da Pu ta!
Filho da pu  ​​​​ ta!!

(Respiração)
Viver sob este céu
é ter mil sustos
é ter orgasmo e amor
é engolir sangue
é sentir dor.

Há que se sujar
Não dá para esquecer
Não dá para não ver
a terra a estremecer
“com este sangue a correr”
a varrer para o Brasil
um saber que só a viver
poder florescer e curtir.
Você está sofrendo
Eu também e estou sozinha
O céu está brilhando
Índios estão morrendo
outros estão resistindo.

Como estará o céu amanhã?

(Julia Pascale)

 

Detalhes:

Música dos índios Meináco registrada pela equipe do Marechal Rondon (Índios do Brasil II – Rondon – 1953)
Corte de cabelo Avêti: no alto da cabeça como uma coroa há uma área raspada em forma circular com um chumaço no centro.

Palavras da equipe Rondom: “As mulheres dos Bacairí da nova geração já têm o aspecto das mães civilizadas” (grifo meu).

Reprodução, através de gráficos, de pinturas corporais dos índios Karajá, Kamayurá e Pianokotó Maripá (arquivo da pesquisadora).

Acompanhamento e colaboração na preparação de seis novas indigenistas.
24 horas na vida de ​​ um cacique-xamã Xavante em Cuiabá.

Fui proibida pela freira de visitar a tribo Minki (nenhuma justificativa muito clara, sinto que é por moralismo e paternalismo exacerbado por parte dela). Apesar da proibição, devido à difícil situação em que vivia a aldeia Minki – surto de gripe – fui encaminhada para lá. Três pessoas assumiram a minha ida: dois dirigentes da OPAN (Rosa e Ivar) e a indigenista Ângela que mora na aldeia.

Noite passada na casa de trânsito, ao ar livre. Tento dormir em minha rede até as 3 da madrugada, quando sairíamos para a viagem. Primeiro, alguns índios vieram conversar comigo, um deles, Xavante, fez um puta discurso sobre a FUNAI e se foi. Segundo, eles voltaram e começou uma grande movimentação. O xavante estava muito bêbado. Ele era candidato a deputado estadual. Passa a falar vários palavrões em português, entra na casa das mulheres índias, mija, ameaça vir para cima de mim e ainda, antes de dormir, pede para os índios “sentarem”, e totalmente excitado fala muitas vezes: “Viadão”. Terceiro, Antonio, um índio que parece meio bêbado, arma sua rede coladinha na minha e se achega bem mesmo: “Agora a senhora vai contar história para mim”. Contei de longe. Quarto, quando fechei os​​ 
olhos tranquilamente, esquecendo a bagunça e a fome, ​​ já era hora de sair.
O Padre Arlindo na direção, três índios, três índias, quatro bebês e eu. Aperto. Frio. O que é estar sentada ao lado de uma índia senhora. O aperto é bastante grande, eu fico muito incomodada, me mexendo a todo instante, tentando melhorar a posição. Ela ao contrário, tem seu corpo em completo repouso ao meu lado. Estamos bem apertadas mas ela não liga. Está completamente relaxada. Tento durante toda a viagem apreender esta​​ 
presença cósmica. Aos poucos consegui me ajeitar e sentir passivamente um corpo grudado no outro, e pude “viajar” como provavelmente ela faz, mas ainda muito além do que eu posso.
Passagem pela aldeia do Paredão que tem apenas 4 ou 5 casinhas muito próximas da estrada. Todos os Parecis desta aldeia falam português e compram mantimentos.

Visita a aldeia Irantxe do rio Sacre. Eles vivem no limite da reserva, em contato bastante freqüente com os “brancos”, mas não querem se afastar do rio. Maravilhoso com um salto de 40 metros de altura, guarda mistérios e está ligado aos ritos de passagem dos indígenas da área. Eles tem uma pequena igreja na aldeia e uma mulher, D. Ivone, mora lá, exercendo as funções de enfermeira.

Aldeia do Cravari – índios Irantxe – Uma tarde eu estava apreciando o por-do-sol sossegada com um grupo de jovens índios que tinham bebezinho e casa nova. De repente, em pleno serrado mato-grossense, numa aldeia indígena escutei os badalos de um sino. Sim, eram sinos de igreja e chamavam para o início da missa. Como todos da aldeia, também fui à missa, muito chata, em nada diferente das da cidade. Ao final fui chamada a falar do meu trabalho e das minhas intenções para os índios. Eles gostaram muito. Depois disso a aproximação com as mulheres foi imediata. Trouxeram vários tipos de comida, fizeram fogo, se mudaram praticamente para a casa onde fui hospedada, que havia sido de umas freiras.
Viajamos, de madrugada, eu e Padre Arlindo e Mané Irantxe e quando estava amanhecendo chegamos à aldeia Minki. Encontro com Ângela. Aldeia com Gripe. Histórias e Histórias. O Padre se foi. Conversar, acostumar-me aos novos hábitos. Estes índios quase não têm contato com a “civilização”. Tiro a blusa e me pareço mais com eles. Daí o dia-a-dia: cortar cana, buscar lenha, moer cana, tomar “xixa”, comer abóbora, falar no rádio.​​ 

Estava no rio com as mulheres, lavávamos roupa.​​ 
Vi um enfeite novo entre as plantas da mata: uma menina índia, com a mesma presença de uma flor. É esta presença que quero pesquisar e desenvolver: a​​ menina índia​​ tem seu corpo e sua mente totalmente integrados à natureza, por isso se parece a uma flor. Existe, ‘apenasmente’. Não há nenhuma ansiedade ou expectativa ou indagação ou conflito. Sua curiosidade para comigo se resolve apenas olhando, e pronto. Assim também se percebe para tomar o remédio: ninguém estica o pescoço e o queixo para fazer qualquer coisa. Simplesmente faz, a vontade parece não estar no ‘ego’. Há um equilíbrio muito grande entre eles e o ‘cosmos’. Tanto que vi uma mulher alimentando uma ararinha em sua própria boca.
Primeiros passos de enfermaria. Xaropes, massagens e conversas. Tentativa de colocar soro no braço de Emiú, uma índia grávida, que está bastante fraca. Não deu certo, então o marido dela passa a fazer pequenos cortes em suas costas, com uma taquarinha, pois acredita-se que a dor e a doença saem com o sangue destes pequenos cortes. Na dor de cabeça eles cortam a testa e assim vão se cortando.

Depois de ter sido destacada para acompanhar os índios doentes à cidade, passo o meu primeiro dia de enfermeira realmente. É duro. Tive que cuidar dos doentes enquanto era noite, às vezes o doutor vinha me ver, para saber se tudo corria bem. Quando o primeiro dia na cidade nasceu, a primeira coisa que o Vovô (o mais velho da tribo) fez, ​​ foi me buscar para ajudá-lo a fazer fogueira. Choramos juntos.

Chegou o avião da FUNAI, o Vovô voltou para a Tribo e eu segui com a Emiú, seu marido e seu filhinho para Cuiabá. Nos primeiros minutos de vôo Emiú pegou minha camiseta e cobriu seu rosto para não ver onde estava. Depois de uma duas horas de vôo ela se arriscou, pouco a pouco, a olhar para baixo.
Em Cuiabá demoramos dois dias para encontrar um lugar para ficar e mais um até que toda a família pudesse ser reunida num quarto de hospital. O choque é cruel. Não há mais rede, não há mais fogo, há que se usar roupas, tomar banho no banheiro, mijar e cagar no banheiro. O rio é longe. Volto agora para vê-los.