Mátria Amada Palestina

 

 

Por Julia Pascali*

A interatriz e performer brasileira Julia Pascali registra suas impressões poéticas a partir de frases, emoções e sentimentos fragmentados de personagens do documentário A Palestina Brasileira, de Omar L. de Barros Filho. Ao final, ela descobre que a Palestina é a terra, o lar, o coração de um povo que vai e volta e beija sua Mátria, a mãe, todos os dias.


Assisti com grande felicidade e engajamento ao documentário de Omar L. de Barros Filho A Palestina Brasileira, filmado no Rio Grande do Sul e na Palestina. De pronto escrevi ao autor a seguinte mensagem:

“Omar!!!
Tenho que me segurar para não chamar as famílias palestinas que vivem aqui em Pirenópolis. Quero compartilhar e difundir essa maravilhosa mensagem, que a mim revelou um segredo: o feminino é o grande condutor oculto de uma cultura aparentemente tão masculina. Aliás, creio, isso é o que os deixa muito à vontade no Rio Grande do Sul.
Todos reverenciam a Pátria Palestina. A grande dama do filme.
Esses homens vivem cá e lá na busca e cultivo do grande útero. A casa, a família, a pátria, Mátria.
Junto-me ao clamor das dançarinas: Continua, traz a história desse misterioso feminino palestino.
Aquela mulher ao final do filme: fortaleza, doçura e muitos segredos…
Sua jornada para filmar - uma verdadeira epopeia!
Tu és um herói, amore mio.
Todo o Brasil merece saber dos brasis que abriga.
A Palestina Brasileira chegará aos olhares de todos.
Avanti popolo! Per la vittoria!”

Ao ler esta mensagem, Matico (nome carinhoso de Omar) desafiou-me a registrar minhas impressões.
Como uma Maia, invoquei o estado de extrema solidariedade: Eu sou uma outra você.

Voltei para uma segunda sessão, mais reveladora e instigante.

Compartilho o que fui anotando, acompanhando meu coração e minhas pesquisas, com escutas palestinas, cá e lá: a cor da areia, o dourado do sol e as ovelhas seguindo, fiéis ao seu pastor beduíno, rumo ao grande lar. Imagens belíssimas que abrem o filme A Palestina Brasileira em alusão ao errante povo palestino - filhos do deserto, fiéis seguidores da Pátria Mãe, Mátria encravada em seus corações onde quer que estejam.

No deserto, as montanhas da Palestina são firmes como a fé desse povo que, com resistência imensa, migram e imigram, órfãos, levando seu canto para todos os cantos a reverenciar a terra.

Em 1948, com o surgimento do estado de Israel, 600 mil palestinos saem de suas terras. (No mundo há 6 milhões de palestinos, 5 milhões vivem em 12 % do território original, a atual Palestina.) As duas intifadas  (1987 e 2000), conflitos que duram anos, revelam a luta deste povo por seu território original, hoje majoritariamente dominado por Israel, que avança mais e mais com ocupações ilegítimas.

Nas décadas de 1950 e 1960 chegam ao Brasil, e aportam, também, no masculino Rio Grande do Sul, em fraterna identidade. Formam lá grande parte da Palestina Brasileira.

-“Por que imigrar?
- Quero uma terra que tenha liberdade, liberdade de verdade.”

Os mundos do Rio de Grande do Sul e o muçulmano têm em comum sua exposição a partir do mundo masculino - culturas que se irmanam. Esta identidade fez inúmeras famílias escolherem essa região para viverem: Santana do Livramento, Torres, Uruguaiana, na fronteira com o Uruguai.

 -“Árabe não pode chorar, tem que ser macho, então eu ia chorar no banheiro com saudade de minha mãe.”

 Chegaram e se estabeleceram, primeiro como mascates, a vender roupas. A iniciação à língua portuguesa deu-se a partir de três palavras:

-“Roupa barata, freguesa!”
E, depois, os números.
Estas três primeiras palavras foram âncoras para sobreviver no Brasil.

Em meados de 1950, da Palestina para o desconhecido Brasil, vieram os improváveis “mascates”, que formaram suas famílias aqui e, mais tarde, enviaram seus filhos para a universidade.

Há uma geração de jovens e adolescentes a serem formados cujos pais querem também que se reconheçam como palestinos, aprendendo a língua árabe e a cultura tradicional.

(Cenário: Palestina, centenárias, quiçá milenares, oliveiras acolhem e alimentam homens e mulheres ao seu redor.)
-“A cultura dos palestinos é catar azeitonas, comer, vender, desfrutar…
Vivemos em torno das oliveiras.
Na terra.
Em torno de amendoeiras.
Vivemos a vida inteira ao redor das árvores de abricó, amêndoas, olivas…
Se arrancam as oliveiras (o que fazem os israelenses quando ocupam as terras da Palestina) não temos o que comer!
Como vamos viver?"
As mulheres são felizes cuidando das azeitonas.

-“O povo árabe é hospitaleiro como o brasileiro e tem um grande sonho:
Que a Palestina - Amada Intocável - viva em paz, como o Brasil está vivendo em paz (2017). O povo árabe é pacífico, é transparente, é paz, é o que mais conserva a moral da família. Não é agressivo.”

A Palestina Brasileira revela histórias e desafios de pessoas que vivem cá e lá, em constante intercâmbio, com a marca da saudade eterna, seja por estarem no Brasil, seja por terem escolhido a Palestina.

Pais que não veem seus filhos há 14 anos.
(Cenário: Casal em padaria caseira no Rio Grande do Sul.)
- “Sobreviver fazendo o pão e doces árabes.”
A comida é uma língua universal.

Palestinos que não conseguem a cidadania brasileira por não aprender uma nova língua aos 60 anos de idade.
Campos de refugiados na Palestina, com pessoas confinadas em seu próprio país, ou vivendo distantes de suas raízes.

O fundador do Cemitério Islâmico próximo a Porto Alegre e suas razões.

O criador de uma imprensa palestina no Brasil, um praticante cristão a visitar a família em Belém.
“Confiam em sua Terra. Confiam na Palestina." diz aquela velha mulher agradecendo, emocionada, a visita do sobrinho, que a deixara há 56 anos!

Comerciantes sócios em empreendimentos no Brasil e na Palestina.

Uma mulher que, ao enviuvar no Brasil, voltou para Palestina e construiu seu lar para abrigar sua família.

Em Torres, no Brasil, uma bailarina revela seu protesto pela ignorância sobre a mulher palestina, seus desejos, pensamentos. A dança expressa parte da cultura da mulher palestina

Falando em português, um empreendedor cria uma rádio na Palestina, destruída por soldados israelenses furiosos com o discurso de Yaser Arafat no microfone da emissora.

(Cenário: Muitos homens saudando Alah em um dos grandes portões da sagrada mesquita de Al-Aqsa. Onde quer que estejam, no solo da mesquita ou não, devotadamente reverenciam a criação cinco vezes ao dia, inclinando-se e pedindo a benção da Mátria Palestina).

 -“Temos dois países, duas amadas pátrias. Viagem para ir e voltar para Palestina todos os anos é estressante. Tem que voltar sempre para Palestina, sentir aquele ar, aquele vento gostoso.”

 -“Teimosia é morar aqui na Palestina, nossa terra! A terra é maior que teus filhos, a tua Pátria. Vale a pena morrer por causa da Palestina.”

O poeta, comerciante no Brasil desde 1981, escreve todos os dias, sobre o balcão da loja de tecidos:
“Viajei para o Brasil, mas Palestina está atrás de mim. Eu não vou largar ela, ela está dentro de mim.
Minha Palestina está comigo sempre e vai ficar comigo até sempre.

Pátria! Parte do meu corpo sente saudades do Brasil. Sou um poeta da saudade. Onde eu vou, a saudade vai atrás de mim. Para sentir melhor esta saudade tem que voltar para Palestina!”

Emocionado, o poeta recita um trecho sua obra:
Esta é a Palestina!
Minha Terra bela e querida!
Um paraíso que virou um inferno.
Que pena!
Que pena Palestina!”

(Cenário: homens e mulheres marcham e cantam, rumo a uma muralha construída por Israel.)
-“FREE, FREE, PALESTINE!
FROM THE RIVER TO THE SEA!
FREE, FREE, PRISIONERS!”

A cor do deserto, a cor do sol, abre e fecha o documentário.

A Palestina é a terra, o lar, o coração, a feminina geração de um povo que vai e volta e beija sua Mátria, a mãe, todos os dias.

-“Foste e és muito forte, como todas as palestinas são.”

A grande mãe quer que seus gritos sejam ouvidos:-“Deixem nossas crianças viver.”

Junho de 2020
Pirenópolis (GO), Brasil

https://sincronicidadexpressao.com.br/matria-amada-palestina/

*Julia Pascali (Maria Julia Pascali), interatriz, dedica-se desde 1973  às artes, tendo atuado em mais de 80 trabalhos como atriz, performer, preparadora de atores e diretora. Professora desde 1975, Doutora em Artes pela UNICAMP, já esteve ligada a PUC, USP, UNICAMP, UFPA, UNB, UFG. Sua pesquisa Sincronicidade e Expressão combina os saberes orientais e indígenas na criação de um conjunto de práticas e conceitos para a preparação de ator, expressão gestual, dramatúrgica e coreográfica em cinema, teatro e dança, na criação de histórias e em cenas de arte integrada, participativa, comunitária e holística. Participa de congressos, cursos, apresentações, palestras, vivências e performances-solo e coletivas, difundindo seu trabalho no exterior (China, Japão, Itália, Estados Unidos, Israel, Canadá e México) e no Brasil (PB, BSB, MT, GO,  PA, SP). Dedica-se também às artes do desenho em nanquim e vídeos. Seus trabalhos estão reunidos no site www.sincronicidadexpressao.com.br