Desde criança eu me conheço como italiana. Brasileira de descendência italiana. Fui criada com alimentos italianos, no meio dos meus avós italianos, Domenico Pascali e Giulia Gianocca Pascali, dos meus tios e tias, primos e primas. Com os homens que cantavam, com as uvas, orechietti (macarrão feito em casa em formato de orelha), molho de tomates, pratos típicos da Puglia, do sul da Itália. Escutando o dialeto de Polignano a Mare (que tem traços da língua grega) .

Estas famílias descendentes de imigrantes italianos se uniram às de origem negra e indígena, Paulo Pascali e Maria Apparecida Pascali, meus pais. Nesta miscigenação os traços indígena e africano ficaram mais ocultos.

No caminho de encontrar minhas raízes da descendência italiana, tomei como missão unir os laços, reatar a família de meu avô. Ele imigrou  em 1908 para o Brasil e desde então ele não conversou mais com sua família. Os irmãos mais velhos haviam imigrado para os Estados Unidos, Califórnia. Meu avô veio para o Brasil e seu uniu a colônia Pugliesa que residia no Brás e no bairro do Glicério, no centro da capital paulistana. Lá encontrou minha avó, também de Polignano e juntos tiveram 6 filhos, dentre os quais meu pai, Paulo Pascali .

Eu sentia muito a falta de informação e contato com os ancestrais italianos, não compreendia porque havia tanta distância afetiva. E fui procurar estas raízes. Em 1987 passei o Natal com parte da família que vive na Califórnia, cujo endereço encontrei a partir de algumas antigas cartas.  Nesse dia comemoramos o reencontro da família. Minha intenção era chegar à Itália, ao lugar onde meus avós nasceram, na cidade de Polignano a Mare. Naquele Natal peguei uma cópia de uma foto antiga que foi feita junto à família, numa viagem para Itália. Com essa foto, 8 anos depois,  cheguei a Polignano a Mare. Deixei minha mala na estação de trem e fui andar pela cidade. Assim que adentrei a parte histórica da cidade percebi com maravilhamento porque meu avô nunca teve vontade de voltar a Itália. Certamente ele não retornaria ao Brasil. Encantada fui fotografando a cidade com ares de Grécia e o mar. Quando a pelicula terminou, procurei comprar outra. Resolvi mostrar para o rapaz da loja a foto antiga que eu havia levado. Ele reconheceu imediatamente um amigo da juventude. Contei-lhe a história. E ele chamou o amigo, Angelo Bovino ( Sim, o sobrenome da família havia mudado, pois na Itália havia ficado somente uma irmã, que se casou com um Bovino!). Ali, na loja que vendia filmes fotográficos, o rapaz presenciou nosso encontro. Foi maravilhoso: assim que nos vimos sentimos o pulsar ancestral que nos unia. Sim, éramos parentes, do mesmo sangue. Nesse mesmo dia, muito emocionada, conheci Zia Izabella e  dormi na mesma casa em que meu avô nasceu, na cidade de Polignano a Mare, na Puglia, Itália!